9 de mai de 2010

Entrevista: Lenissa Lenza fala sobre o Cubo Card- experiência de moeda solidária cuiabana

Por Luiz Carlos Mathias


Dentro de uma lógica trial, o processo da música passa por várias etapas. Existem vários agentes, boa parte deles conectados, que formam o que chamamos de Cadeia Produtiva da Música. Esse processo se divide entre produção, circulação e consumo, todos em constante transformação (agora cada vez mais acelerada graças a Internet). Na perspectiva de dinamizar esse processo e dar maior fluxo aos serviços e produtos oferecidos pelos agentes que compões essa cadeia e ainda expandindo o sistema para outros pólos de atuação artística voltados ao setor cultural estão o Espaço Cubo, organização cultural mato-grossense (Cuiabá) ligada ao Circuito Fora do Eixo, uma rede de trabalhos concebida por produtores culturais de todas as regiões do Brasil estruturadas em forma de coletivos. 

O cubo card funciona como um sistema de crédito reconhecido e utilizado entre organizações e atores sociais ligados ao Espaço Cubo. Foi criado para incentivar a troca de produtos e serviços e possibilitar a dinamização da cena cultural de Cuiabá. Hoje, o coletivo já gira anualmente cerca de 150.000 cards, o que equivale a R$ 225 mil. Aproximadamente 50 grupos ou organizações sociais utilizam o sistema, inclusive a prefeitura de Cuiabá.

De forma inteligente, o Espaço Cubo expandiu a rede de usuários do cubo card usando o sistema de crédito como único pagamento de shows e inscrições em seminários, além de creditar cards para empresas que patrocinem seus eventos culturais.

Segundo Lenissa Lenza, cineasta, produtora do Espaço Cubo e uma das idealizadoras da iniciativa, existem vários exemplos de “projetos que surgiram por causa do cubo card ou se estabelecem e crescem pela integração com o mesmo. Cita grifes, produtores, empresas de comunicação, dentre outras.
Veja abaixo a entrevista completa que fiz com Lenissa Lenza.


Quando foi criado o cubo card?
O Cubo card é uma iniciativa do Instituto Cultural Espaço Cubo que surgiu em 2002 na cidade de Cuiabá. O Espaço Cubo é um instituto de laboratórios culturais e entre eles, o sistema de crédito cubo card.
Em 2004, visualizamos melhor o que poderia ser esse sistema de crédito tendo a idéia de criar um processo próprio de viabilidade cultural. Tínhamos alguma informação sobre as moedas verdes utilizadas em acampamentos do movimento estudantil e percebemos que podíamos fazer a nossa própria moeda.

Como surgiu a idéia da moeda alternativa?

Em 2004 estávamos muito mal financeiramente. sem recurso para sobrevivência das pessoas e menos ainda do projeto. Como sabíamos que não poderíamos abandonar o barco de jeito nenhum (pois essa opção nunca existiu), começamos a fazer trocas para a coisa continuar funcionando.
Chamamos as bandas e como tínhamos um estúdio amador de ensaio e gravação, botamos as bandas para produzirem seu material e ensaiarem em troca de fazerem shows nos nossos eventos. Aí a roda continuava.
Pensamos um pouco mais além e conseguimos permutar com algumas bandas, coisas além do show, como por ex. material gráfico, concepção visual e etc. Resultado, para fazer um evento o nosso custo ia lá embaixo (por conta das permutas) e o que gerava de grana, dava pra sobrevivência básica de alimentação, transporte e etc. Foi quando notamos que precisávamos ampliar e sistematizar a idéia e transformar isso numa moeda própria do Cubo. Eis que surgiu o Cubo Card.

Qual o fluxo negociado anualmente em cubocards? Existe alguma predominância nos serviços utilizados pela moeda?

Cara, a gente já gira 50.000 cards só com os projetos maiores como o Festival Calango e o Festival Grito Rock. Contando as outras ações, tranquilamente esse número triplica anualmente. Todas as pessoas que trabalham direto ou indiretamente recebem em cubo card e automaticamente geram cubo card.
Os serviços são os mais variados possíveis. Temos uma tabela por setor que indica todos os serviços ou produtos que disponibilizamos para o Sistema de Crédito. Os mais utilizados são os de comunicação (arte gráfica, release, newsletters), eventos (ingressos, aluguel da casa e etc) e sonorização (aluguel de som, produção musical, ensaio e etc).

Li que bares, restaurantes, cabeleireiro, lojas de roupas, locação de DVDs, lojas de discos, livros e até a Secretaria Municipal de Cultura incorporaram o sistema. Isso confere? Quantos são os usuários do sistema de crédito hoje?

Confere sim. A secretaria municipal enxergou um grande potencial na troca do cubo card. eles podem ter shows pros seus eventos das nossas bandas e ainda nos auxiliarem nos nossos projetos. A gente acaba triplicando as ações culturais que são de interesse do poder público e de uma certa forma, fazendo-os investir mais e mais em cultura.
Grifes também visualizaram que a idéia é muito potencial. Inclusive a grife PADAM surgiu por causa do cubo card. O lançamento exigia locação da casa de shows, som, produção, bar e etc. e tudo isso ela recebeu em cubo card, o que viabilizou o processo inicial da sua Grife.
Assim como aconteceu com vários projetos que surgiram por causa do cubo card ou se estabelecem e crescem pela integração com o mesmo. São eles: PADAM, Pull off produções, Bota Fé produções, Panamby, Volume, Próxima Cena, Imprensa de Zine, Instituto Mandala, CVC vídeo, Secretaria Municipal de cultura, Restaurante KG, Misc, Curto - Circuito, Cia Pessoal de Teatro, cerca de 30 bandas, dentre outros.
Isso sem contar os parceiros do crédito fora de Cuiabá como o Goma Cultural (Uberlândia), Catraia (AC), Festival Rock Feminino (Rio Claro - SP) etc. Aproximadamente 50 grupos ou organizações sociais.

Você considera que o cubo card já está consolidado em Cuiabá? É válido em outras cidades?

Sem dúvida. Foi o sistema de crédito que manteve o Espaço Cubo vivo e o faz crescer a passos largos, inclusive rompendo fronteiras.
Sobre outras cidades, indiscutivelmente é possível. Qualquer lugar que tenha trabalho (serviços ou produtos) em seu hábito cultural pode ser potencial para o surgimento do seu próprio crédito pautado na troca de trabalho.
Inclusive, essa articulação já vem sendo feita e consolidada através do Circuito Fora do Eixo - rede de integração cultural entre coletivos nacionais pautado no cubo card.

Quais os benefícios observados?

Além da sobrevivência e manutenção dos nossos empreendimentos? (risos). Bom, conexão principal na prática para formação da rede, potencialização da sobrevivência e do equilíbrio social entre trabalho e espécie, potencialização de empreendimentos culturais e sociais, formação de novos quadros profissionais e qualificados…

Foi preciso fazer algum ajuste no sistema de crédito?

O cubo card é um eterno laboratório. E como tal, ajustes serão sempre feitos, mudanças, novas ferramentas e estratégias para a sua abordagem.
Um dos assuntos sempre pertinentes a periodicidade da troca para cada integrado. Afinal, não podemos correr o risco de todo mundo querer usar os créditos na mesma coisa ao mesmo tempo. Por exemplo, se tenho 10 bandas que querem gravar suas demos na mesma semana, isso deve ser ajustado.

Para que atividades vocês costumam usar o cubo cards como sistema de inscrições/ pagamento (como a Semana do Audiovisual – SEDA)? Que outras estratégias vocês têm para disseminar o uso da moeda?

Várias. Divulgar as atividades no blog, mostrar as trocas acontecendo na web tv, divulgar assinatura de contratos, newsletters, formatar editais de auxílio a projetos através do card e assim por diante.
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Saiba mais sobre o Cubo Card: www.cubocard.blogger.com.br/

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